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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Ficamos por aqui

Um dos fatores que me levaram a fazer psicologia foi a possibilidade de ajudar pessoas infelizes a se tornarem um pouco mais feliz, e ver esta satisfação, este sorriso no rosto. Mas a imagem que muitas pessoas tem do processo de análise é de "um caminho obscuro e repleto de sentimentos negativos, os quais eu prefiro evitar". Infelizmente, eu tenho que concordar com eles, e tentar defender com o argumento de que "você começa a se conhecer e ter noção de que tais ações são por isso, aquilo e aquilo, o que te dá a opção de não continuar agindo da mesma forma". Ok. Sentá lá, Cláudia, e me mostra no seu desenho onde está a alegria nisso tudo.

Sei que, pelo que eu disse acima, muitas pessoas desistiram de fazer análise. Bom, se ajudar em algo: Não desistam!!! Por mais estranho que possa parecer, vale a pena! Quer saber como? Não me pergunte. É algo que só se entende vivenciado, até porque cada um vivencia de uma forma diferente.

Ouquei

Encontrei mais uma resposta e diversas novas perguntas para continuar o caminho. Estava vendo uma entrevista que o Jô fez com Morena Baccarin, e quase no final desta o Jô a questionou como é ser reconhecida pelo público, o que ela está achando desta mudança, e etc. No que ela foi respondendo, Jô comentou algo do tipo: "É bom ser reconhecido por algo que se faz (...) ver as pessoas te procurando com um sorriso no rosto, com alegria".

Eu não acho que eu sou um anormal por isso. Talvez uma auto-estima mais elevada poderia minimizar os estragos, me tornar menos dependente. Mas acredito sim que ser reconhecido é algo que faça bem a todos, lhe dando mais ânimo para continuar fazendo, e buscando o melhor. Estava conversando com um amigo este final de semana sobre uma nota que tirei num trabalho da pós, e o mesmo me questionou: "Mas e você? Achou que merecia esta nota? (...) Porque não importa muito a nota que ele te deu, e sim a que você acredita ter merecido".
(Ok, Sir. Now I understand when you said "My self-esteem is Ok!" to me.)

Eu, definitivamente, não sou tão ok assim. Não sou nem "ok", muito menos "tão ok". E isso me causa um desânimo enorme. Sabe aquela coisinha que os outros chamam de "sentido para a vida"? Tem passado longe. Eu gosto do que faço, e faço muito bem aquilo que faço, mas ainda falta encontrar um sentido pra isso tudo. Minha resposta padrão, quando me perguntam porque estou nesta área, é: "Ah, porque dá um bom dinheiro mais rápido". Vazio, né? Pois é. Vazio.

Ou eu me seguro no dinheiro pro resto de minha vida, ou eu encontro meu "sentido de viver" (by Manoel Carlos), ou vou ser gauche na vida. Outras opções??? Dêem-me uma, dêem-me duas...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Trianon

Um perdido numa cidade suja, cheia e suja. Há tanto movimento em minha volta, tanta vida, tanta energia, enquanto eu permaneço parado, atônito, imóvel, suspenso. O grito vem na garganta e volta, com medo de acordar o vizinho. O medo tem dominado tudo: os gritos, os desejos, as frustrações e as esperanças. É difícil se guiar sozinho, acordar de manhã e decidir o que você irá fazer naquele dia, tentando lutar contra você mesmo, suas próprias barreiras e resistências.

Ou limitações?

Será que estou fadado a me limitar a isso? Será que o sonho idealizado não passará de mais um sonho? Será que aquelas palavras ditas há anos atrás serão, de fato, tão fortes que se tornarão barreiras intransponíveis, inquebráveis, imutáveis?

Respostas que terei que descobrir sozinho, pois elas só me farão sentido assim. Enquanto isso, virei mais por aqui.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Salvador Dalí

Acabei de voltar de um restaurante classudo daqui de Salvador, comemorando o aniversário de uma amiga do trabalho.

O nome do restaurante é Salvador Dalí. O que se espera da decoração do mesmo? Quadros cubistas na parede, coisas caindo pelos lados, um ornamento meio inusitado no canto... sei lá, algo um pouco mais "surreal", certo?

Errado. Encontrei um espelho das antigas enorme na parede, uma cristaleira da mesma época cheia de taças no canto, mesas e cadeiras tradicionais, quadros mostrando paisagens litoraneas e, finalmente algo que lembre o cara, duas fotos de Salvador Dalí.

Eu acho bizarro quando se apropriam do nome de artistas, personalidades e até lugares em restaurantes, bares e até edifícios sem se usar em sua construção e decoração as características que marcam o "homenageado". Se é pra ser Salvador Dalí, que seja Salvador Dalí! Agora, botar o nome de uma pessoa e seguir um padrão seu não dá, mesmo. Se for pra ser assim bote "Chez alguma coisa" mesmo, e não se aproprie da personalidade dos outros em vão.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Meu filho me pediu uma boneca

Meu filho me pediu uma boneca
(Denise Batista)

Há uns dois meses meu filho de sete anos me pediu uma boneca. Dividida entre a intelectualidade dos estudos acadêmicos e os valores que a nossa "reaça" sociedade demonstra nas questões de gênero, dei a boneca," bancando" um barulho enorme por parte da família, colegas de trabalho, ex-marido e afins. Sem contar com a censura silenciosa de alguns, revelada por olhares ou gestos. É claro que recebi apoio e solidariedade. Mas o oposto foi muito mais pesado. Confesso que compreendo. Por parte de alguns mais, por parte de outros, menos. Mas respeito.

O meu desconforto foi muito mais em relação a mim mesma do que às posturas percebidas, públicas ou anônimas, verdadeiras ou educadas. Foi duro encarar minha insegurança em assumir DE FATO uma posição em relação às minorias sociais. Foi esta imagem, refletida no espelho das relações familiares que meu filho e sua boneca me obrigaram a olhar. Tive que sustentar uma postura, na prática, que há muito considerava como minha. Em teoria. Só descobri isto quando foi com um filho meu.

Aqui faço um parêntese: enquanto eu me torcia e retorcia constrangida, fazendo como o anão de jardim "cara de paisagem", meu filho não estava nem aí para os olhares e comentários sobre meninos e bonecas e exibia orgulhoso a sua gorducha bailarina, penteando os seus cabelos, trocando as suas roupas, mudando o seu penteado, entre extasiado e maravilhado com as possibilidades daquele "ser" de 20 e poucos centímetros e puro látex, para onde ia: no meu trabalho, no Mestrado, pelas ruas, na casa do avô, do pai...lugares públicos ou privados para este menino não dizam nada! A cada um que afirmava que boneca não era coisa de "macho", ele perguntava candidamente: por quê?

A boneca para o meu filho foi um Lego às avessas: montava, desmontava, descobria as calcinhas (olha mamãe a calcinha dela!) maquiava, lavava, alimentava... Confesso: quando ninguém estava olhando, brincava junto com ele e me divertia à beça, me sentindo criança de novo, relembrando o prazer de simplesmente brincar!

Enquanto isso, na vida real as opiniões se dividiam entre as seguintes opções:

OPÇÃO A: Não é nada demais, é só uma fase, (os conservadores, mal disfarçando o seu mal-estar psicologizando a "coisa")

OPÇÃO B: Ele está descobrindo a sexualidade, (os moderados)

OPÇÃO C: Ele esta aprendendo a cuidar dos filhos. Por que, homem não pode cuidar dos filhos, não é? (os progressistas-liberais de extrema esquerda intelectuais, dentre eles, minha querida "profdoc" Cristina Novikoff, um bálsamo na minha vida)

OPÇÃO D: Ele está querendo chamar a atenção em protesto por tudo que passou nestes últimos tempos (os contemporizadores sociologizando a mesma "coisa")

OPÇÃO E: Este menino vai é ser "viado" mesmo! (muitos, em off, é claro!)

OPÇÃO D: Nenhuma das anteriores (mas esta opção não é aceita na pedagogização da "coisa")

E eu ali, realizando uma pesquisa disfarçada sobre o assunto, coletando os dados, tratando-os e analisando os resultados!

Mentalmente, catalogava as opiniões. Torturava-me a possibilidade entre assumir uma atitude "firme" com meu filho para não ser julgada e execrada, ou seja, aceita pelos meus pares, ou ainda pior, sucumbir num mar de disfarces, meias-mentiras, mentiras inteiras, hipocrisias...

Optei pela lealdade aos meus princípios. É neles que está o amor incondicional ao ser humano e o respeito às diferenças, que só se consolidam se você tiver um compromisso real com a verdade. A sua verdade. Possibilitando àquilo que é estranho, ser familiar. Esta postura é uma daquelas que, quando a gente "bota a cara" sabe, e leva muita, mas muita porrada (não é Aninha?).

Meu filho é um ser humano. Pode ser diferente ou não no sentido convencional das opções sexuais. Mas isto não é importante. É apenas uma categoria de análise. Logo, não posso abrir mão dos meus princípios, pois eles constituem a minha identidade. Mantenho-me fiel a eles.

Bem seja o que for que representa a boneca para o meu filho, o fato é que ele está feliz da vida com o seu brinquedo novo e está me pedindo outra...

O fundamental, importante e imprescindível é o amor que sinto por este mini-humano e a admiração profunda que sinto ao vê-lo cuidar tão amorosamente do irmão menor, pela sensibilidade em perceber só de olhar meu rosto, o meu estado de ânimo, mesmo se tento disfarçar (e me alertar!), pela preocupação com o coletivo, demonstrada nas pequenas atitudes cotidianas, como não jogar papel de bala no chão ou recolher as garrafas pets que meu pai insiste em atirar no seu quintal; em demonstrar bom caráter ao não contar mentiras muito punks (aquelas que sacaneiam alguém ferindo seus sentimentos), pela comoção sincera quando vê um desvalido, pela alegria com que admira a beleza de uma florzinha safada no jardim da minha mãe e colhê-la e colocar num copo me oferecendo; ao adorar incensos e gostar livros, não com a devoção que eu gostaria, mas ok, e ao profundo amor que devota à sua Bolinha.

Me emociono ao vê-lo dormir e me assusto com a rapidez com que está tendo que amadurecer, pois a vida não tem sido fácil para ele.

Sendo assim, é muito fácil ser mãe deste ser humano de sete anos que me chama de mamãe. E se ele for gay, lésbica, hetero, bi, drag, transformista ou desejar uma cirurgia de mudança de sexo, tudo bem. Mesmo. O importante é que seja qual for o caminho escolhido, que seja pautado pelos princípios humanitários. Aqueles que fazem a gente ser decente e não nos torna indiferentes às misérias do mundo. E de quebra, que ame o seu próximo, respeitando a dignidade alheia. E que sonhe sempre com um mundo melhor, como antídoto para afastar o cinismo que ronda o cotidiano da perversidade.

Antônio, eu te amo meu filho.

Por tudo. Mas principalmente por me fazer olhar, de forma corajosa para dentro de mim mesma.

Com amor,

Mamãe.